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Informar e promover o diálogo para um Pantanal sustentável.

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Pantanal do Século XXI – CONSERVACIONISMO

Lusiane Fredrich Zaninetti (*)

Partindo-se de uma visão meramente protecionista da natureza, se poderia definir o “Ambientalismo” pura e simplesmente como um movimento historicamente recente da humanidade, em virtude do qual uma parcela da sociedade moderna passou a se preocupar com a deterioração do seu próprio meio ambiente e, por conseguinte, a se preocupar com a preservação das áreas ainda intocadas do Planeta.

E foi sobretudo com esta visão “compensacionista” – entre áreas urbanizadas ou cultivadas e áreas desabitadas ou inexploradas – que surgiram os ativistas ecológicos e, posteriormente, as primeiras entidades ambientalistas organizadas, as quais passaram então a atuar politicamente ou por meio de “lobbies” em prol da preservação da natureza, em especial, daqueles santuários ecológicos pouco habitados ou ainda não economicamente explorados.

Nesta esteira, vieram então os movimentos socialmente articulados, os quais passaram a promover ou, muita das vezes, simplesmente encamparam o chamado ativismo ambiental, “ideologizando” aquela preocupação inicial que o “Homem do Século XX” começara a ter com o seu meio ambiente, ao colocar em perspectiva a sua própria sobrevivência.

Ao longo das últimas décadas, esse movimento histórico, sem dúvida, deu azo ao surgimento de cidadãos melhor educados ambientalmente ou, às vezes, ao menos “ecologicamente corretos”. Em outras palavras, criou, de fato, pessoas conscientes da questão ambiental ou, por vezes, as educou ou as adestrou para passar a respeitar mais a Natureza.

Inegável, pois, este aspecto extremante positivo desta faceta inicial do movimento ambientalista global, o “compensacionismo”. Todavia, hoje, sabidamente insuficiente e ineficiente!

Primeiramente, porque cria uma sensação entre países e povos de diferentes condições e realidades de que “agora que você já destruiu ou seu lá, você quer vir aqui e preservar o meu”, de que “você se desenvolveu explorando lá, mas agora eu não posso fazer o mesmo aqui”, de que “porque eu tenho que pagar aqui, a conta do estrago que você fez lá?”.

Além disso, provoca em mentes simplistas uma rivalização inútil do tema, uma disputa ideológica pobre, um interminável “Fla-Flu” entre o homem do campo e o da cidade, entre países “ricos” e “pobres”, entre produtores rurais e ativistas…

Fazendo com que o homem moderno, predominantemente urbano, e, muitas vezes, pouco esclarecido da vida e da lida fora das cidades, por vezes, como que se “esqueça” de que o alimento que ele consome não “nasce” no freezer do supermercado.

Diante desse cenário maniqueísta, todavia, esta reflexão não propõe meramente um recuo no atual modelo de ativismo ecológico, nem tampouco no atual modus operandi das entidades ambientalistas organizadas e nem muito menos propugna a abolição dos chamados mecanismos econômico-financeiros de compensação ambiental.

Apenas tenta mostrar que, no mais das vezes, muito de tudo o que se tem feito até hoje sobre este tema, de certa forma, são, a longo prazo, meros paliativos.

Porque a verdadeira e eficaz “Revolução Ecológica do Século XXI” deve, na medida do possível, cuidar igualmente, de todos e de cada um dos ecossistemas do nosso Planeta.

Porque não basta criar “ilhas” de preservação e reservas ambientais oficiais, “canonizando” alguns belos santuários ecológicos, para poder então asfaltar e destruir todo o resto.

Porque, ainda que se crie reservas ambientais com extensões territoriais maiores do que muitos países da Europa, com o iminente crescimento populacional do Planeta, não poderemos garantir que a flora destas “ilhas de preservação” receberá chuva suficiente para continuar a existir como é hoje.

Porque, ainda que se preservem integralmente os mais belos santuários ecológicos do nosso País e do Planeta, não poderemos garantir que a fauna destas determinadas extensões de terras “beatificadas” poderá se perpetuar ficando a elas circunscritas.

Muito mais eficaz do que PRESERVAR A PARTE da interferência humana, idealizando “bolhas” de natureza selvagem intocável, é CONSERVAR RAZOAVELMENTE O TODO, por meio do uso universal da natureza de forma racional, do entendimento de que não há solução possível sem a concepção de que o manejo sustentável da natureza é tarefa de todos em todas as partes.

Que isso – CONSERVAR – deve valer não só para as florestas tropicais, mas também para os mares, desertos, cidades e também para o nosso Pantanal.

Esta reflexão propõe uma definitiva conscientização de que a MELHOR CONSERVAÇÃO POSSÍVEL DO TODO é muito melhor do que a PRESERVAÇÃO TOTAL DA PARTE, ou melhor, de algumas partes.

Isto vem ao encontro do que, acreditamos, deverá ser o desenvolvimento sustentável do nosso PANTANAL.

Isso – CONSERVAÇÃO – vem ao encontro da busca pelo equilíbrio entre produção e preservação, a partir da sua implantação generalizada, em caráter universal, em todo e qualquer ecossistema do Planeta, esteja ele já degradado ou não.

De sorte que o ônus seja repartido e os benefícios sejam compartilhados, para que não haja povos ou localidades excluídas do desenvolvimento, nem países ou regiões alijadas do crescimento econômico.

Que a vocações naturais da nossa região sejam desenvolvidas, para que as populações pantaneiras vivam com dignidade, porém conservando e protegendo o nosso PANTANAL.

(*) Membro do Conselho Diretor da SOS Pantanal – Instituto Socioambiental da Bacia do Alto Paraguai, organização não-governamental, cuja principal missão é informar e promover o diálogo para um Pantanal sustentável.