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Queimadas no Pantanal: qual o impacto sobre a fauna?

O retrato do Pantanal pós-queimada é bem impactante. Tuiuiús, que são aves símbolos da região, foram vistos pairando sobre as cinzas, assustados com todo o fogo que atingiu o Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda. Pesquisadores flagraram a carcaça de cobras e jacarés no meio da mata. As araras-azuis voavam sem rumo, com dificuldades para reconhecer seu habitat natural. 

De acordo com as estimativas, já foram mais de 1,5 milhões de hectares consumidos pelo fogo (mais de 2 milhões de campos de futebol). Foram detectados mais de 2.400 focos de incêndios só no mês de agosto no Pantanal, e, infelizmente, a previsão para próxima chuva na região é só no dia 29 de setembro.

Carcaça de jacaré vítima das queimadas no Pantanal. (Foto: Mario Habelferd)

NO GERAL, COMO AS QUEIMADAS IMPACTAM A BIODIVERSIDADE? 

De acordo com um artigo publicado na Oecologia Australis, a resposta da fauna aos efeitos do fogo pode ser bem diversa, pois depende das características de cada espécie, da frequência e intensidade dos incêndios, além dos aspectos espaciais da área como: tamanho do espaço queimado, grau de fragmentação e heterogeneidade da paisagem.

Os efeitos do fogo podem ser classificados como diretos e/ou indiretos e, de forma objetiva, a principal diferença é o tempo e intensidade que levam para interferir no ecossistema da região. 

Efeitos imediatos 

Os efeitos diretos do fogo são: queimaduras, intoxicações e mortes. E, mesmo que a mortalidade ser um impacto de fácil mensuração, ela não atinge de maneira uniforme toda a cadeia de diferentes espécies. Neste caso, o histórico de vida, morfologia e comportamento permitem que alguns grupos sejam mais ou menos suscetíveis às consequências das queimadas. 

O resultado mais severo que um incêndio pode causar é a eliminação de todos os indivíduos da população, ou a redução da população abaixo de seu tamanho mínimo crítico, entrando em estado de extinção. 

Jacarés mortos por conta das queimadas. (Foto: Folha)

Efeitos a longo prazo 

Os efeitos indiretos do fogo costumam ser mais amplos, tardios e diversos do que os imediatos. Esses impactos podem alterar a estrutura das comunidades animais, devido às mudanças que ocorrem na paisagem. Tais mudanças estão relacionadas a variações na disponibilidade e na qualidade do alimento e mudanças na estrutura dos habitats, como destruição dos locais de abrigo para reprodução, proteção e descanso. Dessa forma, pode ser uma questão de tempo até que os animais morram (efeito negativo) ou adaptem seus comportamentos naturais, evoluindo a espécie (efeito positivo).

QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS DO FOGO NO PANTANAL? 

Os animais estão entre as maiores vítimas das queimadas que atingiram alguns biomas brasileiros nos últimos meses. Na região centro-oeste, por exemplo, os incêndios levaram o estado do Mato Grosso do Sul a decretar situação de emergência em 9 cidades. E tamanha destruição acaba forçando alguns animais a fugirem da área afetada, o que pode interferir até mesmo na dinâmica ecológica das regiões próximas. 

Segundo os estudiosos, essa fauna que consegue se deslocar chega a pontos próximos que muitas vezes já estão no limite de sua capacidade ambiental, gerando maior competição e aumentando o estresse daqueles animais que já estavam vivendo no local. A volta de sua dinâmica normal pode demorar e impactar negativamente na vida selvagem e até os homens que dependem da natureza. 

Conforme registro da Polícia Ambiental, ainda não é possível ter um número exato de animais mortos pelo fogo, mas sabe-se que a perda de vida selvagem foi bem expressiva. Brigadistas relatam ter encontrado tuiuiús, tatus, sucuris e tamanduás mortos, muitos deles carbonizados. Além do mais, também houve apontamentos, que ainda serão contabilizados, de animais atropelados em rodovias ao tentarem fugir do incêndio, como quatis, tamanduás, jacarés e cobras. 

Como se já não fosse suficiente, existe uma série de outros prejuízos a longo prazo para o meio ambiente. O fogo interfere na biodiversidade, atrapalha o ecossistema e também aumenta os níveis de poluição. E quando questionamos o tempo de recuperação dessas áreas, as respostas são bem desanimadoras. 

De acordo com o especialista Arnildo Pott, que é pesquisador e professor da UFMS, “Quanto mais campo, mais rápida é a recuperação. Quanto mais floresta, mais demorada. Além disso, tem outro aspecto que é o carbono: as plantas acumulam carbono, o solo acumula carbono, material morto é carbono acumulado, e quando isso vai para o espaço, acontece o conhecido efeito estufa.” Portanto, além de todos os efeitos sentidos de forma instantânea, a biodiversidade ainda sofrerá no futuro com o aumento das temperaturas.

Incêndio que assola o Pantanal no mês de setembro. (Foto: Mario Habelferd)

AMEAÇA DIRETA ÀS ARARAS-AZUIS 

Infelizmente, os incêndios no Pantanal colocam em risco um incrível trabalho que vem sendo realizado há mais de 20 anos à favor da conservação das araras-azuis. A ave, que já esteve criticamente ameaçada de extinção, hoje é classificada como vulnerável graças à projetos como o Projeto Arara Azul

Segundo o nosso diretor executivo, Felipe Dias, os 22 ninhos com ovos e filhotes não foram diretamente atingidos pelo fogo, mas os animais perderem sua principal fonte de alimento, visto que os coqueiros e palmeiras do entorno foram destruídos. “As aves e filhotes escaparam do fogo, mas não significa que vão sobreviver aos efeitos da queimada.”, afirma ele. 

Araras-azuis ameaçadas por falta do alimento no Pantanal. (Foto: Edson Diniz)

O TRABALHO DO SOS PANTANAL EM MEIO AO CAOS

Por mais que o panorama do fenômeno seja devastador, nós do SOS Pantanal sabemos que nenhum esforço para salvar a biodiversidade local é em vão. Além de levar a campo pesquisadores e estudiosos com o intuito de mensurar os danos causados pelo fogo, nós estamos juntando todos os esforços necessários para diminuir o estrago e recuperar o que for possível da flora e fauna pantaneira. 

Em um momento como esse, também relembramos a importância da Lei do Pantanal (Projeto de Lei 9950/2018), que está em debate, visando proteger o nosso bioma. Agora, mais do que nunca, reforçamos o nosso trabalho de advocacy, cobrando junto do poder público leis mais rigorosas em dos recursos pantaneiros.

Mas, não são apenas nossos colaboradores que podem fazer a diferença, você também pode! O Onçafari, projeto parceiro do SOS, lançou uma campanha de financiamento coletivo, para que todos possam contribuir com a recuperação das áreas afetadas pelo fogo. Conheça mais sobre o projeto, sobre a campanha e ajude a renascer a fauna e flora do Pantanal!

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